![]()
Centro das Tradições de Santo Amaro.
por Roberto Pavanelli
[ Índice das colunas já publicadas ]
"Quando algum dia, em minha terra eu
voltar;
Quero encontrar as mesmas coisas que deixei;
Quando o trem parar na estação,
eu sentirei com emoção, a alegria de chegar."
Lembrando a letra dessa música, que fez
sucesso na voz de um conhecido cantor, comecei a sonhar com um possível retorno ao meu
passado. E foi sonhando que me ví um dia descendo do trem na estação Jurubatuba. Ao
sair dele porém, não ví mais os campos que ladeavam o rio Pinheiros. Encontrei um
grande movimento de carros que se enfileiravam para entrar num "Shopping
Center". A estradinha que alí havia, tinha se transformado em uma grande Avenida
chamada Nações Unidas. Assustado me dirigi à pé até o Largo do Socorro, e não mais
achei a linha do Bonde, nem a pequena ponte que unia o Socorro à Santo Amaro. Procurei um
taxi naquele Largo, onde também já não estava aquela capela onde as pessoas
freqüentavam a missa celebrada pelo Padre Manoel. Não encontrei a Da. Justina, nem o
farmacêutico Jeremias. Lá também não estavam o Seu Chico da padaria, nem o automóvel
do Virgílio, do Manezinho, do Zé Marante do Nato Marini e outros. Muito confuso,
continuei minha caminhada. Subi a Av. de Pinedo e tinha a impressão de estar num local
onde nunca estivera antes. Ao entrar na Rua Morais Navarro, espantado reconheci a modesta
casa onde nasci. Lá estava ela, inibida porém forte resistindo ao tempo. Ao seu redor,
os verdes campos onde passei os mais felizes dias da minha vida, tinham sucumbido por um
amontoado de residências desordenadamente construídas. Voltei e continuei a caminhada
pela Av. de Pinedo e não mais consegui encontrar o Parque Central nem o Restaurante do
Pepe, achei porém o Casino Vila Sofia. Onde havia o armazém do Zé Carudo, encontrei uma
fábrica e na esquina, onde ficava a Da. Rosa Marini vendendo pipocas, apenas encontrei
sacos de lixo. Não ví aquele monumento que ostentava um homem com uma grande asa em suas
costas; não pude visitar a represa porque encontrei uma placa dizendo "Proibida a
entrada". Foi aí que, agoniado, resolví ir até Interlagos. Lá, não ví ninguém
pescando nas margens da represa, não pude passear de barco e não achei mais aquele
aviãozinho que um dia me levou às nuvens. Nenhuma inscrição sobre aqueles que alí
perderam suas vidas, alegremente nadando nas águas que um dia foram limpas. Meio sem
saber onde me encontrava, resolvi procurar Santo Amaro. Quando pensei ter chegado no Lgo.
São
Sebastião, me enganei porque ví uma placa dizendo que eu chegara
no Lgo. Boneville. Subindo por onde achei ser a Alameda Santo Amaro (Nota da Redação: na
foto à direita, a Alameda Santo Amaro em 1936. Clique na foto para ver a ampliação),
não pude tomar café na Padaria Hessel, nem ver a vitrine das Lojas Ykko. Cansado, pensei
tomar um ônibus na rodoviária ao lado da Igreja Matriz. Nem rodoviária, nem ônibus.
Só perueiros e barraqueiros. Que medo!. Tentei rir com o Toninho engraxate, e ele não
estava lá. Eu tinha que procurar alguma distração. Fui ao Cine São Francisco, nenhum
filme, ele não existia mais, fui ao Cine Mar e lá estava um moderno Banco. No cine
Marajá só achei uma Loja de roupas e quinquilharias. Com dor de cabeça, procurei a
Farmácia Na. Sra. Aparecida, não a localizei, nem o Zé da Farmácia pude consultar.
Perdido tentei me localizar pela Santa Casa de Santo Amaro, mas achei estranho, não ví
alí o Frigor Eder, lá estava um tal de Banco Itaú. Por fim, resolvi falar com algumas
pessoas que, com seus semblantes tristes se dirigiam a um local que me causou curiosidade.
Uma delas me respondeu: "estamos indo orar no túmulo do Bento do Portão".
Seguindo-a, cheguei no Cemitério de Santo Amaro e aí sim, encontrei tudo como deixei e
ainda descobri, que as pessoas que não achei em minha caminhada, lá estavam gozando seu
merecido descanso eterno. Tomado então por uma estranha tranqüilidade, pensei comigo.
Ainda reconstruiremos Santo Amaro como foi um dia, só que NO CÉU!.
Convide um(a) amigo(a) para ler esta matéria
Envie seu comentário ao autor deste artigo