A coluna do CETRASA
Santo Amaro: Passado, presente e futuro.
por Roberto Pavanelli
Outubro 02, 2003

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Todo lugar tem suas próprias características, de maneira a torná-lo um lugar único nas cabeças daS pessoas que ali nascem e ficam durante toda suas vidas.

O amor que alimentamos pelo torrão natal se assemelha ao condicionamento recebido pelo filho no seio familiar, tal como o sabor inigualável do tempero da comida da mãe, os jeitos e trejeitos dos irmãos, do pai, da avó, etc...

Essas familiaridades levadas à cidade onde nos criamos, cada qual com sua, faz você se identificar com os detalhes dessa cidade mãe e assim, individualizá-la entre as demais de seu Estado e País. Os detalhes ficam por conta dos costumes, dos prédios, das tradições, das histórias que se contam e das personagens que se destacam durante o tempo de seu crescimento.

Em Santo Amaro não foi diferente para as pessoas que lá viveram e cresceram durante as décadas de 50 e 60, quando aquele bairro ainda mantinha sua principal característica de ser um bairro cidade, distante do grande centro e provinciano pelo passado que teve.

Os costumes e tradições ficaram por conta das romarias à cavalo em direção à cidade de Pirapora do Bom Jesus - tradição que até hoje se mantém, e das festas do Divino Espírito Santo, no Lgo. Treze de Maio. Entre as personagens que se notabilizaram, tivemos o poeta Paulo Eiró, o escultor Júlio Guerra, o político e farmacêutico, Zé da Farmácia (vereador José Diniz) e uma parteira conhecida pelo nome de Benedita Martins ou “Dita Parteira”. Tivemos um anãozinho engraxate muito conhecido por suas firulas no Lgo. Treze, dois andarilhos conhecidos por BIG e Nega Luíza, e ainda a Corujinha, uma velhinha que pedia esmolas num carrinho de madeira. Entre os prédios perdidos, restam lembranças do Grupo Escolar Paulo Eiró e do Cine São Francisco que terminou num trágico incêndio.

Tudo isso grava os momentos de crescimento daqueles que nasceram em Santo Amaro, numa determinada época.

Retrata bem isso tudo, o que ouvi certa feita de um menino, como forma de desabafo, que é uma historinha que agora peço licença para repetir para vocês:

Era uma vez um menino que cresceu ouvindo histórias de contos de fadas de sua velha mãe.
Ouvia esse menino, histórias de um lugar onde o povo reverenciava o Divino Espírito Santo com majestosas festas;
Histórias de um povo que pagava tributo ao Bom Jesus com cansativas cavalgadas;
Histórias de um lugar onde vivia uma velha e bondosa senhora negra que ajudava as crianças pobres e ricas a nascer;
Histórias desse mesmo lugar onde vivia um bondoso farmacêutico que atendia, como se fosse médico, as pessoas pobres com muito carinho;
Tão bom era o farmacêutico que esse mesmo povo o elegia seu representante junto ao parlamento da cidade grande;
Histórias de um lugar fantástico onde nasceu um homem que pintava sua cidade em coloridos quadros e que construía gigantescos homens de concreto;
Histórias de um lugar alegre, onde vivia um anãozinho exótico que engraxava os sapatos das pessoas;
Histórias de uma praça que abrigava um coreto, que continha uma banda, onde as mocinhas casadoiras podiam passear com segurança. Fato costumeiro sempre após a missa de Domingo na Igreja Matriz, que era ligada a essa praça por uma Rua Direita.
Histórias de um cinema que queimou, para a tristeza desse mesmo povo.
Enfim, histórias de um lugar absolutamente romântico, lírico, alegre, seguro e fraternal, onde sua gente cultivava o hábito da cadeirança nos crepúsculos dos dias. E essas histórias foram pintando na cabeça dessa criança um quadro colorido de um lugar que se aproximava do paraíso.
E esse menino, que ouvia de sua velha mãe todos esses contos, foi crescendo, e à medida que começou a sair sozinho pelas ruas começou a identificar o lugar onde tinha nascido, como sendo aquele das histórias de sua Mãe.
E sse menino foi feliz porque ainda conseguiu essa identificação, mas foi entristecido que viu tudo se acabar.
Hoje o menino que virou homem não é contra o progresso, mas vai gritar sempre contra a incúria dos administradores de sua terra, que sem se identificar com seus administrados, acabaram por permitir a derrocada de seu bairro cidade.
Porém, ao mesmo tempo que gritará contra tais desmandos, renderá sempre homenagens a um grupo de abnegados conterrâneos que não medem esforços para a preservação das histórias de sua querida mãe.

Por enquanto, Tcháu!!!! Roberto Pavanelli.

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